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Depois de escrever o post de ontem fiquei um pouco melancólica, pensando na casa da minha avó Nayr. Pensando nela. Ela tinha uma casa mágica, que de tempos em tempos se transformava. Já foi oficina de bichos de pelúcia, de velas, de chinelinhos, de pijamas, de bonecas de pano, de ovos de páscoa, de tudo o que se possa imaginar. Minha avó adorava cursos. Muitas vezes eu virava sua assistente. Até pedicure dela eu fui por um bom tempo, mas logo comecei a achar aquilo de lixar o pé um pouco desagradável. Na casa dela eu podia passar horas no telefone com as minhas amigas, ligar para o disk-amizade e tomar Keep Cooler. Na casa dela sempre tinha torta chiffon e merengue. No inverno ela fazia chocolate quente e chá de maçã com canela para os meus amigos. Depois que eu comecei a namorar e a viajar com o Fhabyo, ela não me deixava ir para a praia sem levar um saco de biscoitinhos de cebola! Ela já deu aula de culinária na minha escola. Já me pagou um curso de culinária pra ver se me encaminhava nessa vida. Também me colocou na aula de órgão e me deu o instrumento pra me incentivar no universo da música. Nenhuma nem outra tentativa vingaram.

Minha vó era cheia de vida. Hoje ela tá vazia. A casa dela também. Parece que as paredes ficaram maiores e os quadros sumiram no espaço em branco. Já não tem mais uma mesa na sala cheia de miniaturas e enfeites de gosto duvidoso. Os porta-retratos continuam lá, mas as fotos já não dizem nada. São fotos recentes, dos netos, dos filhos, misturadas com fotos antigas. Não importa. As fotos ficaram transparentes. Tudo murchou, assim como as mãos dela. Como o rosto, como os olhos. Não gosto de andar pela casa. Fico um pouco na sala, mas evito entrar em outro cômodo. Não tem mais mágica. Não tem mais surpresa. Não me arrisco em abrir a geladeira. O vazio gela a alma. Tenho saudades da minha avó do jeitinho que ela era. É muito ruim sentir saudades de quem ainda está aqui.

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