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Sempre achei legal essa história de primo. Primo é um irmão sem obrigação. É um amigo sem restrições. Dá pra brincar e brigar, que ele sempre vai estar ali por perto. Mas não tão perto. Eu convivi pouco com os meus. Era um Natal aqui, um ou outro feriado. E as férias na praia… As tão esperadas férias na praia. Estas eram mais longas, envolviam mais gente, geravam mais confusões e foram inesquecíveis. Lembro de todas elas. Das casas alugadas, do bando de gente que passava por lá: primos dos pais, avós da gente e avós dos primos, primos de terceiro grau, amigos da família, amigos das outras famílias, vizinhos da temporada, empregada da tia, colega de trabalho do pai. Era aquele bando de gente, minha avó Nayr cozinhando sem parar, o meu avó Alcides comprando melancia, os adultos tomando cerveja, a criançada correndo solta, os beliches entulhados e as brigas. Essa era a parte mais divertida. Eram brigas com requintes de crueldade. Porque primo tem dessas coisas. Eles sempre sabem o nosso ponto fraco e atacam sem piedade. Algumas broncas depois, tudo fica bem.

Hoje estamos todos crescidos e moramos longe uns dos outros. Uma parte está em Curitiba, outra em Porto Alegre e tem aqueles lá do outro lado, na Flórida e na Califórnia. Acho, com aperto no coração, que todo mundo junto de novo vai ser impossível. Mas nestas férias recebemos a visita da Márcia, que veio dos EUA com as suas americaninhas lindas, a Isabella (que tem a idade da Marina) e a Sabrina (da idade da Olivia). Daí o povo de Porto Alegre se empolgou e veio também. Foi um final de semana intenso, cheio de lembranças. Tô contando tudo isso, na verdade, pra falar de como foi importante para as meninas esse reencontro. Elas tiveram uma “palinha”de como funciona essa história de primos. Afinal, até agora, a coisa mais parecida com primos que elas conhecem são os filhos das minhas amigas (que cumprem com excelente desempenho esse papel).

Como não poderia ser diferente, elas brigaram o tempo todo. A Marina, com sua vocação inegável para o ditatorialismo, passou o tempo inteiro tentando dar ordens para a Isabella. A Isabella, que também sabe impor suas vontades, aprendeu rapidinho a mostrar seu descontentamento em português. Passaram o tempo inteiro implicando uma com a outra pelos motivos mais absurdos. “Mãe, olha que ridículo como eles falam sofá em inglês, é sofa. E chocolate é chocolat” ou “Tia Fernanda, no is the only word that Marina knows in inglish?”.

Uma gostava de azul e a outra de verde, uma queria assistir TV em português e a outra em inglês, uma queria comer pizza e a outra hamburguer, uma queria alugar Indiana Jones e a outra Harry Porter. Mas adivinha se elas se desgrudaram por um dia sequer nas duas semanas em que elas passaram aqui? Foram noites e dias intensos de intercâmbio cultural e emocional! Uma terapia intensiva de família.

E a Olivia e a Sabrina então. Travaram verdadeiras guerras por mamadeiras e brinquedos. A Sabrina, com seus seis meses a menos e seis quilos a mais, mostrou que no mundo dos primos o mais forte quase sempre leva a melhor. E a Olivia, que não puxou só o furinho no queixo da mãe, abria o berreiro cada vez que perdia uma batalha.

Enquanto isso, eu e a Márcia aproveitamos para colocar 23 anos de conversa em dia. Muita cerveja, muita risada, algumas lágrimas e histórias de infância deliciosas que me fizeram voltar no tempo. Márcia, se você ler isso, quero que saiba que é sempre será a minha priminha querida. E que toda vez que nos despedimos, sinto aquele aperto no coração que senti naquele dia na rodoviária em que vocês embarcaram rumo à nova vida e, na nossa ingenuidade de criança, fugimos para tentar escapar no inevitável. Mas também sinto que podem passar 2, 10 ou 20 anos, sempre que nos reencontrarmos vamos ter aquela sensação de termos nos visto ontem. Hippie touch!

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