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Ontem fui no velório da avó de uma amiga. Enquanto estava lá vendo a avozinha rodeada de flores, lembrei da minha. Não tinha um dia sequer que eu não saísse de casa que ela não viesse correndo atrás de mim (ela era daquelas avós ligeirinhas e silenciosas, sabe?) com uma florzinha arrancada do jardim pra eu levar pra casa. Às vezes eu nem ia pra casa e a flor (quase sempre uma rosa) ficava lá murchando no carro. Mas nunca tive coragem de não aceitar. Um carinho tão singelo, de uma delicadeza que só as avós têm. Às vezes a florzinha solitária ficava num copinho d’água, do lado da minha cama. Confesso que não dava muita bola pra isso. Achava bonitinho, só. Além das flores, as comidas eram suas poderosas armas de conquista do amor dos netos. Era a gente elogiar uma receita que pronto: anos e anos comendo torta chiffon, bolachinhas de cebola, pão recheado, chá da bruxa e merengue. Aos poucos as tortas começaram a dar errado. Faltava um ingrediente ou outro. A panela começou a queimar e um dia o fogão pegou fogo. Enquanto minha vó ia, minha filha vinha. Não sei o que se passou exatamente nesses primeiros anos. Não vi acontecer. Estava tão ocupada aprendendo a ser mãe que os sinais de despedida da minha vó passaram meio despercebidos. Até que um dia ela foi. Mas foi e continuou aqui. Tão longe, tão perto. Foram sete anos se despedindo aos poucos. Primeiro sumiu a razão, depois a memória, depois a fala, depois funções básicas como ir ao banheiro e comer. Mas o olhar ia e voltava. Maldita doença esse alzheimer que nos deixa sem saber o que se passa lá dentro. Às vezes o olhar dela me atravessava. Às vezes conversava comigo. Foi assim no último natal antes de ela ir de verdade. Conversamos muito. Eu agradeci a chance de ter ela por perto, o carinho todo, as risadas, a cumplicidade e o amor sem fim. Ela me respondeu com lágrimas. Hoje só penso no privilégio que tive de ter tido uma avó. E não posso ser injusta: tive duas. A outra, apesar da distância e da pouca convivência também me presenteou com o que de melhor uma avó sabe fazer: dar amor, carinho, aconchego (isso sem falar nas rapaduras de leite e geleias de morango que ela fazia). Eu sei que as avós mudaram. Agora elas pintam o cabelo, usam salto alto e saia curta. Mas é só um disfarce. No fundo, elas continuam do mesmo jeito. As avós modernas que usam o facebook e vão no boteco com as amigas são iguais àquelas de cabelos branquinhos naquilo que é essencial: o amor. Uma criança que tem avós é uma criança privilegiada. Aproveitem minhas filhas.

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